Com estratégias sofisticadas, chineses aumentam seu domínio sobre o Brasil

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Desde que se tornou o maior parceiro comercial do Brasil, em 2009, a China seguiu um caminho bastante claro: participar do maior número possível de negócios em território brasileiro, adquirindo empresas ou tornando-se acionista majoritária e entrando forte especialmente nos segmentos de energia e infraestrutura. Desde 2015, a China comprou 21 empresas brasileiras, gastando um total de US$ 21 bilhões, segundo um levantamento das consultorias AT Kearney e Dealogic.

O poder econômico, claro, reflete em uma estratégia menos evidente e mais sofisticada: a tentativa chinesa em manipular (influenciar) os tomadores de decisão das democracias ocidentais. Longe de mera especulação, esse “poder afiado” da China é capa de uma edição recente da The Economist. Segundo a revista, a melhor defesa possível contra essa estratégia é a transparência. Algo que o governo brasileiro, sabe-se, não é muito afeito.

Se países como Austrália, Nova Zelândia, Canadá e Inglaterra já começam a chamar a atenção pública para essa esfera de influência, lobby e cooptação, no Brasil a relação com a China é vista de modo não só e puramente amigável como algo também desejável. Essa relação de interdependência de forças díspares já coloca o Brasil como o segundo maior destino de investimentos chineses em infraestrutura no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.

Essa influência não é fácil de ser compreendida porque tem nova cara, não atuando somente em uma frente. É econômica, política, cultural, diplomática e também autoritária em um jogo permanente de pressão e agrados. Um morde e assopra nos bastidores em que poucos ganham muito e a impressão geral vendida é sempre positiva.

“De ambos os lados, tais relações bilaterais têm sido assumidas pela diplomacia como mutuamente benéficas, complementares e baseadas em laços de solidariedade sul-sul. Narrativa esta, inclusive, reforçada no âmbito dos BRICS, também como meio de promover formas de liderança internacional alternativas. A nós cabe perguntar se em que dimensões a relação é de complementaridade ou dependência”, questiona Alessandra Cardoso, economista e assessora política do INESC.

O mais novo capítulo dessa relação acontece em um momento que a sanha chinesa pelo Brasil é potencializada pelo governo Temer: em maio de 2017, o Fundo Brasil-China foi criado com o objetivo de “estabelecer um mecanismo para financiar projetos de comum interesse entre os dois países”. Somente este acordo prevê um aporte de até US$ 20 bilhões, dos quais US$ 15 bilhões serão desembolsados pelos chineses e o restante pelas instituições brasileiras.

 

Também em maio foi criado o Comitê Brasil-China de Cooperação para Expansão da Capacidade Produtiva. Em setembro, em mais uma rodada de reuniões de Temer com Xi Jinping, foi anunciado mais US$ 9,9 bilhões entre acordos comerciais e memorandos de intenção iniciativas. No road tour, Temer afirmou, não por acaso, que a relação entre os dois países é “fertilíssima” depois de se reunir também com os  presidentes dos conglomerados StateGrid, Huawei, HNA e China Three Gorges.

Movimentações que são uma sequencia do governo Dilma Rousseff, que escancarou a porta em 2015: na época, Brasil e China assinaram 35 acordos de cooperação em oito áreas com investimentos de US$ 53 bilhões. Só com a Petrobras, foram três atos de cooperação de ao menos US$ 7 bilhões.  Para ajudar a financiar esses projetos, o ICBC (Industrial and Commercial Bank of China) passou a operar no Brasil um pouco antes, no final de 2012. Com US$ 3,6 trilhões em ativos, o ICBC é o maior banco e a maior companhia pública do planeta. E um ator chave no Fundo Brasil-China.

Xiaobo Li, diretor-presidente do ICBC Brasil, afirmou que a seleção de projetos que o banco tem trabalhado no Brasil – sobretudo nas áreas de energia, transporte e construção – “leva em consideração os requerimentos de políticas, estabilidade do retorno e controle do risco”. Ou seja, no popular: não dão ponto sem nó. Junto com o ICBC, outros quatro bancos chineses estão no Brasil: Bank of China, Haitong, China Construction Bank (CCB) e Bank of Communications (BoCom). Dos maiores bancos comerciais chineses, o único que não têm presença no Brasil ainda é o Agricultural Bank of China.

Estudos recentes comprovam essa financeirização do capital chinês ao redor do globo. Entre 2000 e 2014, o governo chinês ofertou cerca de 350 bilhões de dólares para mais de 138 países. Esse valor é superior ao orçamento oferecido mesmo por instituições multilaterais como o Banco Mundial. O modo de entrada dessas empresas no Brasil também revela bastante.

Mais que isso: faz parte da ideia bem direcionada que a China quer passar que, de fato, está contribuindo para o desenvolvimento econômico mundial. E os empréstimos concessionais ou comerciais dos seus bancos são fundamentais para isso.

Todos de olho no pacote de projetos e concessões na área de infraestrutura do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) anunciado pelo governo neste ano, que deve somar R$ 45 bilhões. Além dos bancos, uma série de fundos chineses tem o Brasil como alvo principal. Entra nesse bolo o Fundo de Cooperação e Desenvolvimento entre a China e países de língua portuguesa e o Fundo da Nova Rota da Seda, com US$ 70 bilhões de recursos, presente em toda a América Latina.

A que custo socioambiental esse processo se dá tem deixado em estado de alerta movimentos sociais, pesquisadores e organizações da sociedade civil. Na verdade, estudos da AidData e GEGI mostram que, ao contrário do senso comum, o financiamento chinês não costuma levar ao crescimento econômico e, pior, exacerbam os impactos sociais e ambientais nos países que o recebem. “As preocupações mais amplas e estruturais sobre a dependência de commodities ligadas a acordos chineses de empréstimos para commodities em regiões como América Latina e África simplesmente ressaltam a necessidade de questionar os resultados do desenvolvimento vinculados às finanças globais oficiais da China”, questiona Matt Ferchen em artigo.

Domínio chinês em áreas estratégicas: mais próximos do que nunca

De acordo com o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), o setor de energia respondeu por quase 80% de todos os investimentos chineses no Brasil em 2016. Somente em 2016, o montante para o setor alcançou US$ 6,6 bilhões. As gigantes chinesas State Grid e China Three Gorges compraram, respectivamente, a CPFL e a Duke Energy e a China Communications Construction Company (CCCC) adquiriu a construtora Concremat, em operações bilionárias.

O petróleo também é forte: a Petrobras, por exemplo, contratou uma linha de US$ 10 bilhões com o China Development Bank (CDB) em 2016 e utilizou, até o momento, apenas US$ 5 bilhões. Os outros US$ 5 bilhões pré-aprovados esperam a sua vez. Não satisfeita, a Petrobrás também conseguiu mais US$ 1 bilhão de um novo financiamento via China EximBank, que, por sua vez, também firmou acordo de crédito de US$ 300 milhões com o Banco do Brasil.

A sucessão de assinaturas do fim de 2017 não param por aí: o CDB e o BNDES firmaram uma linha de crédito de até US$ 3 bilhões. E o ICBC assinou contrato de financiamento de US$ 400 milhões para o complexo portuários em São Luis (MA), numa operação da chinesa CCCC com a WPR, do grupo WTorre.

A tendência que permanece até o momento faz parte de uma estratégia consolidada nos anos anteriores. Do total de investimentos em energia até 2015, 66% foram realizados na área petroquímica, totalizando um montante de US$ 18,250 bilhões. Os investimentos em linhas de transmissão representaram 23% da total do setor de energia, com um montante de US$ 6,4 bilhões. A importância dos investimentos em petroquímica e linhas de transmissão também podem ser vistos pela sua enorme participação em relação ao total de investimentos chineses estimados no país, sendo 48% em petróleo e 17% em linhas de transmissão.

O petróleo nas novas bacias do pré-sal é visto como um ativo estratégico para as grandes empresas estatais chinesas do petróleo, afirma Iderley Colombini Neto, autor de “Dinâmica Capitalista dos Investimentos Chineses no Brasil”.

Para Neto, além de toda a importância geopolítica do petróleo e a carência energética chinesa, o pré-sal é visto também como uma das novas zonas de captação desse recurso natural. “Não apenas interessada no óleo em si, como demonstram vários estudos sobre a questão energética, a China possui também um grande interesse na tecnologia desenvolvida pela Petrobras para a perfuração e extração desse óleo de tão difícil acesso”, diz Neto.

Boa parte do investimento chinês – cerca de 117 bilhões de dólares entre 2007 e 2014 – foi para o setor de energia em diferentes países, aumentando o risco macroeconômico, os impactos ambientais e desequilibrando a balança global de commodities, apontam pesquisadores da Universidade de Boston. Estes impactos ambientais são exacerbados quando as regulamentações locais são relativamente fracas, lembram os autores.

No Brasil, o fim do boom de commodities tem nos mostrado como foram desiguais e perigosos os fluxos comerciais com a China. Dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) apontam que o Brasil acumulou superávit de US$ 46 bilhões com os chineses entre 2009 e 2015, vendendo commodities.

Entre os efeitos ainda pouco compreendidos para o Brasil deste intenso fluxo comercial baseado em recursos naturais estão a sobrevalorização do real e a perda de competitividade de vários segmentos da produção manufatureira, retroalimentada pelo aumento das importações de manufaturados chineses – de 4% em 2001 para 21% em 2015, segundo a CNI. “Esses efeitos explicam, em parte, a atual e profunda crise econômica brasileira”, diz Alessandra Cardoso.

De que maneira os empréstimos do Estado chinês no exterior criam novos riscos financeiros ou exacerbam as preocupações existentes sobre a sustentabilidade da dívida interna, por exemplo, é algo que passa longe do foco da maioria dos analistas. Para Ferchen, o discurso dos líderes chineses de que o apoio deles é necessário para manter a segurança energética e a infraestrutura em tantos países diferentes é recebido de forma amplamente imune não só pelos próprios cidadãos chineses quanto e, principalmente, pelos felizes beneficiários desses bilhões de dólares como no Brasil.

“A complexidade das relações comerciais e de investimentos Brasil-China ficaram em grande medida nubladas pela narrativa dos interesses sul-sul que contribuiu para mascarar uma relação de fortes assimetrias que aprofundam a dependência histórica do País, e latino-americana, por exportações de commodities, e exponenciam seus inúmeros impactos”, afirma Nathalie Beghin, coordenadora da assessoria política do INESC e doutora em políticas sociais.

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Jornalista e escritor. Cobre temas relacionados a conflitos socioambientais, políticas públicas, Amazônia, mineração e direitos humanos.